Silent Hill e Resident Evil costumam ser os primeiros jogos dos quais fãs de survival horror se lembram quando falamos sobre o gênero. Pensando em títulos mais recentes, talvez existam menções a Alan Wake, Outlast, Amnesia ou mesmo Phasmophobia. Contudo, é bem menos comum ouvir falar de Rule of Rose

Desenvolvido pelo antigo estúdio japonês Punchline como um exclusivo do PS2 encomendado pela própria Sony, que queria um novo jogo de terror, Rule of Rose foi distribuído, no Ocidente, pela Atlus (EUA) e pela 505 Games (na Europa) — ou quase isso, já que, em territórios como o Reino Unido, houve uma grande campanha para que o game nem sequer fosse lançado. 

A polêmica

Jennifer e amiga se abraçando.

Como você pode conferir em diferentes reportagens de veículos estrangeiros, como Kotaku, The Gamer e CBR, a chegada de Rule of Rose ao Ocidente despertou o famoso pânico moral, que foi instrumentalizado pelos grupos de sempre para colocar a opinião pública contra uma obra de arte "incomum", digamos — e estrangeira. 

O político conservador Franco Frattini, que morreu em 2022, é citado pelo The Gamer como um dos principais nomes responsáveis por lutar contra a distribuição de Rule of Rose e de outros jogos considerados subversivos demais para os padrões ocidentais.  

Você deve se lembrar de que, nos anos 2000, extremistas religiosos e outros grupos ultraconservadores tentaram classificar Yu-Gi-Oh! como uma franquia satânica por razões estúpidas, como o fato de que a classe "demônio" representa um tipo de criatura que existe nesse universo fictício. Algo semelhante ocorreu com Rule of Rose, que teve poucas cópias distribuídas na Europa, nos Estados Unidos e na Oceania.  

Afinal, sobre o que é Rule of Rose?

Amanda faz Jennifer observar ritual.

Felizmente, nos anos 2000, o comércio de jogos no Brasil pouco ou nada dependia da distribuição oficial. O que nunca faltou no país foram meios alternativos para consumir games, que sempre foram considerandos um hobby um tanto caro por aqui.  

Rule of Rose conta a história de uma jovem adulta chamada Jennifer, que é sequestrada por um grupo de meninas pré-adolescentes absolutamente sádicas. Levada para um orfanato misterioso, Jennifer passa a ser obrigada pela "elite" daquele orfanato a oferecer presentes mensais que garantem a permanência dela no tal grupo. Como você já pode imaginar com base no que foi dito aqui, Jennifer sofre bastante nas mãos das meninas, que praticam uma forma extrema de bullying (ou melhor, tortura) contra a novata. 

A verdade por trás da narrativa

Meninas com tochas ao redor de Jennifer.

Ainda na primeira hora de jogo, as crianças do tal orfanato prendem Jennifer em uma espécie de caixão e a levam para dentro do que parece ser uma aeronave gigante. Contudo, o interior da nave é uma mistura do orfanato com o que seria uma nave normal. Então, há corredores que levam a salas de manutenção dos motores e outros que levam aos quartos das crianças. A disposição dos cenários é quase como um sonho em que nem tudo faz sentido, mas, ao mesmo tempo, faz. 

De maneira sutil, mas não incompreensível, torna-se nítido, gradualmente, que toda a campanha gira em torno das memórias da protagonista, Jennifer, que teve uma infância particularmente traumática. Então, os acontecimentos que se desenrolam na aeronave não são, exatamente, literais. Tudo o que ocorre ali representa algum acontecimento na vida de Jennifer. 

Amanda esfrega rato na cara de Jennifer.

Obviamente, o jogo aborda temas sensíveis, como abuso, tortura e depressão, e até existem algumas cenas que podem parecer um tanto gratuitas em termos de violência gráfica. Contudo, também há muitos momentos no jogo em que o grotesco e a brutalidade ajudam jogadores a entender o que se passava na cabeça de Jennifer enquanto ela enfrentava, diariamente, o desprezo, a violência e a solidão. 

Durante a maior parte do tempo, entretanto, os temas principais da história estão sempre no subtexto. Alusões às agressões sofridas por Jennifer e à sexualidade da protagonista, assim como das outras personagens, são frequentemente sutis ou metafóricas. Estamos falando de um roteiro genuinamente brilhante. 

Há, sim, algo digno de muita crítica

Jennifer olha para Meg.

Seja para padrões contemporâneos ou para os padrões dos anos 2000, a jogabilidade de Rule of Rose é absolutamente terrível. Ouso dizer que as piores batalhas contra chefes que já joguei estão nesse jogo, cujo sistema de combate é desastroso. 

Contudo, mesmo nesse contexto, ainda há uma justificativa plausível para a jogabilidade questionável: desde o primeiro minuto em que jogadores assumem o controle de Jennifer, é nítido que a personagem é extremamente insegura e ansiosa. Ela parece estar sempre tremendo e com receio de explorar aquele mundo bizarro. Afinal, quem quer cair de cabeça em um mundo constrúido a partir dos próprios traumas? 

Jennifer criança falando com as meninas.

De qualquer forma, é fato que a jogabilidade, ainda que exista uma justificativa narrativa por trás dos problemas dela, é tenebrosa. Me pergunto se uma recriação desse clássico não poderia transformar toda a genialidade bruta perceptível de Rule of Ruse em algo mais refinado. 

É nítido que o Ocidente aprendeu a lidar melhor, nos últimos anos, com obras de terror psicológico — e sabemos, evidentemente, que o problema nunca foi esse, mas, sim, a abordagem de temas que, para grupos extremistas, funcionam melhor quando as pessoas continuam ignorantes a respeito.

O cinema de terror norte-americano, especificamente, encontrou uma caminho genial em obras como Corra!, Hereditário e A Bruxa, que são filmes cheios de nuances perturbadoras. Será que não é hora de arriscar trazer Rule of Rose de volta e melhorado, senhora Sony?  


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