Anunciado originalmente há pouco mais de três anos e vítima de alguns adiamentos estratégicos, Vampyr chega oficialmente nesta terça-feira (05) com um peso considerável nas costas. Afinal, o RPG de ação é o mais novo projeto da desenvolvedora francesa Dontnod Entertainment, que, apesar de sua história relativamente curta, já cavou seu lugar na indústria com o aclamado Life Is Strange.

Mas para um grupo menor de jogadores – e eu me incluo nele –, o título também chamou a atenção logo cedo por outro motivo. Vampyr parece ser uma espécie de sucessor espiritual involuntário de Vampire: The Masquerade – Bloodlines, aclamado título lançado pela Troika Games em 2004 que, apesar de notoriamente bugado, marcou fãs por sua narrativa brilhante inspirada no universo de Vampiro: A Máscara, popular RPG de horror e fantasia da editora White Wolf.

São vários os aspectos que ambos têm em comum: jogabilidade que mistura ação e a interação com NPCs bem desenvolvidos; a temática centrada em vampiros e na relação destas criaturas com humanos; e a divisão do mapa em múltiplos hubs de uma mesma cidade.

Ao final de quase 40 horas e jogo, no entanto, o que fica marcado é outra característica que Vampyr parece ter herdado involuntariamente de Bloodlines: a de ser um ótimo jogo, mas frustrante em momentos por conta de uma série de falhas e bugs esquisitos.

Divulgação/Dontnod Entertainment

Vampyr retrata a Londres de 1918, uma cidade devastada por uma epidemia de gripe espanhola e ainda sofrendo os efeitos da Primeira Guerra Mundial. Nessa ambientação sombria, o protagonista é Jonathan Reid, médico cirurgião aristocrático e vitoriano que é transformado em vampiro logo no início da história, e agora precisa enfrentar o dilema de ter se tornado uma criatura que precisa matar para sobreviver, mas que ainda deseja ajudar e curar pessoas.

Um dos méritos de Vampyr é casar bem esse dilema tanto com a narrativa quanto com sua jogabilidade. A dificuldade do jogo, por exemplo, não é definida no começo da aventura com um clique em uma opção “fácil”, “médio” ou “difícil”, mas sim ao longo da história – uma vez que as habilidades de Reid em combate devem ser compradas através de pontos de experiência, que são conquistados pelo jogador em maior quantidade após sugar o doce sangue dos habitantes da cidade.

Em tese, isso significa que é possível atravessar toda a história sem matar nenhum dos habitantes. O problema é o custo disso. Sem o sangue dos NPCs, o jogador só conta com a parca experiência conquistada em missões da campanha, missões paralelas e com inimigos genéricos, o que significa que os adversários estarão sempre vários níveis à sua frente, exigindo mais estratégia e gerenciamento de pontos de vida, energia e sangue (usado para ativar poderes vampíricos) na hora do combate.

A decisão do jogador de poupar ou se alimentar de cidadãos de Londres tem impactos significativos e permanentes na história

Do lado da narrativa, a decisão do jogador de poupar ou se alimentar de cidadãos de Londres também tem impactos significativos e permanentes na história – afinal, só é possível manter um save por vez por campanha. Cada habitante dos quatro diferentes distritos da cidade em Vampyr tem sua própria história, segredos e um papel específico em sua comunidade – o que significa que sua morte causará impactos perceptíveis.

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Em distritos com muitos moradores mortos por Reid ou com vários habitantes doentes – que podem ser curados pelo jogador através da criação de medicamentos –, o ambiente é mais sombrio, preços de produtos mais caros e missões especiais podem ser perdidas. Se a situação não melhorar, eventualmente o distrito pode ser perdido permanentemente, tomado por criaturas poderosas e hostis.

É um sistema bem construído e ambicioso, que entrega nas mãos do jogador decisões que impactam a vida dos personagens ao redor para pior ou para melhor – e de uma forma bem mais complexa do que decisões “do bem” ou “do mal” ao estilo de jogos como Mass Effect. Por conta do seu impacto na história, as decisões do jogador ajudam a envolvê-lo na trama, e frequentemente voltam para assombrá-lo conforme o jogo progride.

Ainda assim, o sistema não é sem seus engasgos. O maior deles fica por conta da qualidade dos mais de 50 NPCs do jogo, que oscila de extremamente carismáticos a completamente esquecíveis.

Especialmente para jogadores que optam por controlar a sede vampírica, a interação com esses personagens para obter novas quests e ganhar experiência sem ter que matar é praticamente obrigatória, o que acaba envolvendo diálogos maçantes com alguns NPCs pouco inspirados, que só instigam mais a vontade de enfiar um par de presas na jugular.

Divulgação/Dontnod Entertainment

Também a frustrante a sensação de não-fechamento de algumas dessas missões paralelas. Por mais que o jogador possa investigar personagens e, por vezes, descobrir informações comprometedoras sobre eles, não há muito o que fazer com essas informações do ponto de vista de jogabilidade.

Em uma dessas aventuras paralelas, por exemplo, é possível descobrir que um dos habitantes da cidade cometeu múltiplos assassinatos em sua vida e mostra sinais de psicopatia. É possível confrontá-lo sobre o fato, mas nada acontece após a conversa de Reid com o criminoso: ele continua vagando pelas ruas de Londres noite após noite, como se nada tivesse acontecido. Nestes casos, a sensação que fica é de perda de tempo em troca de punhado de pontos de experiência, não uma experiência engajadora.

Além das áreas povoadas, a Londres do jogo também conta com zonas que conectam essas áreas, lotadas de inimigos que renascem entre missões da campanha ou sempre que o jogador morre.

São nessas áreas que a maior parte dos combates de Vampyr acontece, carregado de influências de outros RPGs de ação, como a série Dark Souls, mas também de Remember Me, título anterior do time responsável por Vampyr dentro da Dontnod. Muito mais do que esmurrar o botão de ataque, no jogo é a agilidade, posicionamento e evasões que são chave para derrotar inimigos – especialmente se você optar pelo caminho pacífico.

Apesar de bastante fluido, o combate acaba vítima de algumas falhas técnicas de Vampyr, que até podem ser corrigidas posteriormente, mas são um incômodo notável no jogo.

Divulgação/Dontnod Entertainment

São comuns, por exemplo, problemas com a movimentação de Reid, que tem o péssimo hábito de continuar a correr aleatoriamente em uma direção mesmo depois do jogador soltar a tecla de movimentação. A clipagem de bonecos para dentro do chão e de objetos do cenário também é frequente e, por vezes, trava o jogador em um local durante o combate.

Em Vampyr, a Dontnod entrega uma aventura competente e envolvente, na qual o jogador participa ativamente da trama e consegue sentir o peso e responsabilidade de suas ações no universo ao seu redor. Há, no entanto, deslizes que acabam tornando parte da história maçante e trechos de combate frustrantes – engasgos difíceis de serem ignorados, mas não impossíveis de se perdoar.

Vampyr está disponível para o PlayStation 4, Xbox One e PC. O jogo foi testado em um PC. Clique no nome da plataforma para conferir o preço do jogo em sua versão digital.

Nota do crítico