Antes de começarmos, é preciso deixar algo claro: você não vai jogar A Way Out do jeito que eu joguei.

Mais importante: você não deveria jogar A Way Out do jeito que eu joguei.

Infelizmente, graças ao ritmo acelerado e agenda conturbada da redação do The Enemy, tive de jogar o game em um sofá ora ocupado por Claudio Prandoni, ora por Bruno Silva, brevemente por nosso editor de vídeo Daniel Schettini e, nas duas ocasiões onde isso foi possível, comigo mesmo trocando de controle.

(Não, você não pode ou deve jogar este game sozinho)

O que é até uma experiência curiosa por si só, mas definitivamente não é a maneira que os desenvolvedores pensaram em como o jogo deveria ser jogado, ou mesmo um jeito preferível de experienciar a narrativa, que é especialmente dependente da relação e evolução do relacionamento dos dois jogadores, refletindo a interação dos dois protagonistas, Vincent e Leo.

Mesmo com estes percalços, após chegar aos seus créditos, A Way Out parece tanto uma evolução como um contraponto a Brothers: A Tale of Two Sons, aclamado jogo anterior do diretor Josef Fares, seja em relação a game design e jogabilidade quanto em estética e visual.

Em Brothers, um jogador toma o controle de dois irmãos que partem em uma jornada mística para salvar seu pai, em uma história que é contada principalmente por gestos e deixas visuais. A Way Out, por outro lado, coloca dois jogadores controlando um personagem cada, em uma narrativa de vingança com elementos mais realistas, tendo até árvores de diálogo e decisões morais sobre o caminho que os jogadores prefiram seguir, que acabam afetando (algumas) partes da história - não muito diferente do que você encontraria em um jogo da Telltale Games.

Ainda assim, quem teve contato com os dois jogos é capaz de perceber suas similaridades - ao ponto de Daniel, que teve pouco contato com A Way Out, fez um paralelo entre os dois quase imediatamente -, já que muito do game é composto de pequenos quebra-cabeças que devem ser resolvidos com a cooperação e coordenação dos dois jogadores.

O game tem como narrativa central a busca de vingança da dupla Vincent e Leo contra um inimigo em comum, que os leva a querer escapar da prisão e seguir seus passos até encontrá-lo. Durante sua aventura, os dois são perseguidos por guardas e policiais, desbravam um rio revolto em um barquinho, viram alvo de um assassino de aluguel, e entram em um conflito armado no México - tudo explorado em uma série de mecânicas de jogos e minigames diferentes.

As mecânicas do game variam constantemente de momento a momento, em geral com exploração em terceira pessoa, mas às vezes mudando radicalmente seus sistemas, incluindo partes onde um dos personagens dirige enquanto outro atira em carros, combates mano a mano compostos principalmente por botões contextuais, e até mesmo um breve minigame de beisebol. Por serem utilizados em poucos momentos, porém, muitos deles acabam sendo bem rasos, se ao menos funcionais.

Enquanto jogávamos o primeiro ato, Prandoni chegou a dizer que Fares queria, na verdade, fazer um filme com esta história - especialmente ao se considerar que ele começou sua carreira como cineasta -, o que não seria surpreendente, mas A Way Out funciona melhor como um game, por dois principais motivos:

O primeiro é que, honestamente, ele seria um filme meia-boca, e é provável que você já tenha assistido vários dramas criminais no seu estilo. A narrativa é repleta de clichês, os protagonistas por si só são bem rasos - sem falar no vilão central, que mal pode ser considerado um personagem -, os diálogos costumam ser truncados, e um terceiro ato fraco é compensado por um final interessante.

Porém, em segundo, o fato de estarmos usando uma mídia interativa - e não só comunicando com o jogo, mas com outra pessoa que controla um dos personagens - eleva a experiência, e a conclusão ganha contornos que não teriam o mesmo impacto em um filme ou série de TV.

Há um senso de camaradagem em quase tudo o que você e seu colega estão fazendo, de vigiar os guardas enquanto o outro faz uma saída em sua cela até fazer uma contagem juntos para sincronizar o aperto de botões para abrir uma porta. Um dos momentos mais memoráveis do jogo para mim, inclusive, foi uma simples interação que eu e Bruno tivemos, com ele ajudando a pescar um peixe com um espeto após minutos de fracasso patético sozinho.

O que não quer dizer que mesmo neste sentido A Way Out não seja falho: o game tem alguns momentos bem enfadonhos, que poderiam facilmente ser reduzidos ou cortados completamente; os últimos capítulos, em particular, desanimam ao virar um shooter em terceira pessoa nos moldes de Uncharted (e o primeiro Uncharted, ainda por cima) antes de voltar aos trilhos.

Há também alguns problemas técnicos, como queda de taxa de quadros ou tremidas estranhas da tela, sem falar que o tempo de loading é um pouco longo até mesmo em um PlayStation 4 Pro, o que só me faz imaginar que seja ainda pior em um PS4 ou Xbox One comuns.

E embora tenha elogiado a interatividade do jogo, senti um excesso de elementos no ambiente ao ponto de, em certos casos, quebrarem o ritmo da narrativa. Durante sua jornada, os jogadores podem jogar dados, beisebol, basquete, fazer móveis na prisão, entre outras tantas atividades mundanas e levemente extraordinárias.

Isto também existia em Brothers, mas naquele jogo fazia mais sentido ao mostrar dois meninos desbravando e descobrindo o mundo pela primeira vez, enquanto é simplesmente bizarro ver dois fugitivos da lei brincando com um jogo de tabuleiro em um local público.

Dupla, foco!

Ainda assim, a equipe do Hazelight Studios criou diversos setpieces interessantes e criativos, como a sequência de fuga em um hospital (com direito ao que imagino ser uma pequena homenagem a Oldboy e/ou jogos de pancadaria 2D), e o passado do diretor no cinema certamente influencia o modo com que o game brinca os ângulos de câmera e tela dividida, chegando até mudar da típica visão em terceira pessoa para uma perspectiva isométrica durante uma perseguição.

No fim, A Way Out me parece um projeto de transição de Fares e seu time. Seu escopo é maior que o de Brothers, mas seus tropeços também acabam sendo maiores. Ainda assim, há boas ideias e implementações de ideias no game.

(Relaxa, Josef. Não acho que seu jogo seja uma bosta)

De qualquer forma, não há muitos jogos de narrativa cooperativos voltados para o multiplayer local neste mundo, então se você acha que tem um estilo que te agrada, ele vale ao menos um teste.

A Way Out sai em 23 de março para PC (Origin), PlayStation 4 e Xbox One. O jogo foi testado em um PlayStation 4 Pro. Clique no nome das plataformas para ver o preço em sua versão digital.

Nota do crítico