State of Decay 2 é mais do que a soma de suas partes.

Ao separar seus principais elementos individualmente, o game não tem nada de impressionante em particular: os gráficos e visuais são ultrapassados; as mecânicas de combate e movimentação são puramente funcionais; o sistema de sobrevivência é relativamente simples; e sendo não só um jogo de sobrevivência, como um jogo de sobrevivência com zumbis, ele faz parte de um gênero com um grande ponto de saturação.

(Isso sem falar nos bugs)

Juntos, porém, estes sistemas criam uma experiência divertida e quase viciante, levando o jogador a explorar o mundo e descobrir novas formas de sobreviver ao apocalipse, seja recrutando seguidores, destruindo núcleos de mortos-vivos ou gerenciando e melhorando sua base.

O conceito de State of Decay 2 é simples: você controla um grupo de sobreviventes durante o apocalipse zumbi, que deve encontrar formas de sobreviver entre os mortos-vivos. Para isso, é preciso estabelecer uma base e procurar por 5 recursos básicos no mapa: comida, medicina, munição, material de construção e combustível.

Estes elementos são importantes tanto para o funcionamento da sua colônia quanto para a manutenção e evolução da sua base, que pode ter uma série de estruturas criadas dentro dela - incluindo uma enfermaria, uma oficina, uma plantação, um gerador de eletricidade portátil, entre outros - além de vários locais do mapa que podem ser liberados e transformados em postos avançados.

Dica amigável: tiros chamam a atenção de mais deles

Cada sobrevivente tem habilidades especiais próprias e atributos diferentes, incluindo Saúde e Vigor, o que influencia seu papel tanto no controle do jogador quanto no funcionamento da base. Por outro lado, a morte de qualquer um de seus personagens é permanente, e quanto mais tempo ele ficar sob o comando do jogador, mais ele começará a se sentir desgastado fisicamente, forçando o jogador a pensar em um sistema de revezamento para não exaurir seu grupo.

Todas estas mecânicas reunidas levam algum tempo para se acostumar - ao ponto de que eu recomecei a campanha após algumas horas de jogo pelo estado deplorável da minha colônia até aquele ponto -, mas quando tudo se encaixa State of Decay 2 estabelece um bom loop para o jogador que gosta de explorar e gerenciar bases, com o mundo lentamente se abrindo e trazendo novas possibilidades conforme é explorado.

No início os recursos são extremamente escassos, e é importante dar foco principal à comida e medicamentos para aguentar os avanços de zumbis. Com o passar do tempo, você busca novos locais e territórios, preferindo o uso de carros - que requer constante reabastecimento - a passar horas andando à pé. Ao fazer ações diferentes, desde matar zumbis mais perigosos até completar quests para seus personagens, acabar com áreas infectadas, e ajudar outros enclaves, o jogador ganha pontos de influência, que podem ser gastos na compra de produtos, estabelecimento de pontos avançados, e até mudança para locais melhores para uma base.

Há uma sensação bastante satisfatória nesta progressão, especialmente ao expandir seu QG e melhorar suas instalações,conquistar uma torre d’água e uma estação elétrica para melhorar suas condições de vida, ou mesmo achar uma mochila com mais espaço para carregar objetos.

O maior problema deste sistema, porém, é a interface de inventário um tanto confusa e às vezes difícil de navegar, especialmente ao colocar itens no porta-malas do carro ou estar com a mochila cheia e ser forçado a trocar de personagem para pegar um item - o que, nos piores casos, pode resultar no cancelamento de uma missão importante ao outro sobrevivente.

Durante minhas horas com o jogo, não havia uma narrativa principal, embora mensagens de rádio dessem mais detalhes sobre diferentes facções e o estado do mundo. O mais próximo de um objetivo principal do game é a destruição de Núcleos Pestilentos, que criam um tipo específico de zumbi capaz de transmitir uma doença para seus sobreviventes. Caso não tratado a tempo, o infectado morre e vira uma nova ameaça ao grupo.

De resto, State of Decay 2 é formado de pequenas histórias que acabam ganhando rumos diferentes dependendo da interação do jogador: em uma questline envolvendo sobreviventes militares, por exemplo, um membro do grupo se acovardou ao enfrentar zumbis de antigos companheiros. Mais tarde, ao fugir de sua base, tive a chance de recrutá-lo para minha equipe, mas decidi retorná-lo a seus amigos… onde, em uma missão seguinte, ele foi revelado como um assassino, e morto pelo resto do enclave.

Há momentos de monotonia e cansaço, especialmente no caso de algum outro enclave ou sobrevivente perdido pedir ajuda logo após você voltar de uma busca por suprimentos ou destruição de Núcleos ou Infestações. Ainda assim, o jogador tem liberdade de simplesmente ignorar estes pedidos e partir para outro objetivo (mesmo sabendo que há consequências para este descaso).

Procura-se amigo para o fim do mundo

Uma adição importante de State of Decay 2 em relação a seu predecessor é um modo cooperativo, que permite até 4 jogadores jogarem juntos.

Com os outros três jogadores, a dinâmica da ação muda radicalmente, virando menos uma luta pela sobrevivência e mais um passeio anárquico e enlouquecido pelo apocalipse zumbi, destruindo o que vier ao seu redor.

O coop funciona com um host convidando outros jogadores a juntar-se a seu mapa, onde eles podem ajudar o anfitrião a acabar com pestes, infecções ou sobreviventes hostis… ou simplesmente tocarem o terror neste mundo - com direito a recompensas quando voltarem a seus próprios territórios.

Andar por aí com um carro cheio de pessoas, abrindo as portas para esmagar qualquer zumbi que ouse passar pelo caminho, é uma experiência catártica. Não só isso, pelos carros “patinarem” e deslizarem por regiões do mapa, senti uma certa nostalgia pelo Warthog do primeiro Halo.

Isto torna o jogo estranhamente versátil, podendo ser tanto uma experiência de constante tensão no solo quanto debochada cooperativamente. E, pelo menos, o jogo não se leva a sério o suficiente para tornar a experiência esquisita.

As mecânicas de combate não tem nada especial em relação a outros jogos de terceira pessoa, mas são funcionais e competentes, não atrapalhando a experiência do jogo. É importante, porém, notar o estado de preservação das suas armas - que podem quebrar ou emperrar em momentos chave - e como o Vigor de cada personagem é influenciado por elementos como peso e mobilidade de cada arma.

State of Debug

Por mais que State of Decay 2 tenha me divertido, é impossível não citar os diversos bugs que encontrei durante minhas horas com o jogo. Alguns inofensivos, outros hilários, e outros poucos - por sorte minha - bem irritantes.

Um dos mais “curiosos”, por exemplo, aconteceram durante meus primeiros dias com o jogo, onde era recorrente ver zumbis no alto do céu indo para o chão, já que o game ainda não havia carregado os ambientes do mapa totalmente.

(Ao menos, graças a uma atualização pré-lançamento, isto parece ter sido corrigido)

Menos divertidos, porém, foram as vezes em que o jogo travou em uma tela de loading, ou quando sobreviventes perdidos que precisavam de uma carona de volta para seus territórios desapareciam inesperadamente, ou quando não pude eliminar uma Infestação por um zumbi ter ficado preso na geometria e ser impossível de matá-lo.

Bugs são raramente bem-vindos em jogos, mas sua presença e influência na experiência e divertimento do jogador são mais complexos do que parecem (temos o sucesso dos jogos da Bethesda para provar isto). Talvez mais por sorte minha, não sofri muito com problemas maiores, mas com base no depoimento de outros, é difícil recomendar o game sem algumas ressalvas.

E, infelizmente, as críticas quanto à performance não param só nos bugs: no Xbox One original, onde testei o jogo, a taxa de quadros é constantemente espancada, por vezes caindo abaixo dos 20fps dependendo do que está na tela.

No Xbox One X e no PC a experiência é mais polida, mas uma parcela significativa de usuários sofrerá com estes problemas.

No fim, State of Decay 2 é um jogo que me cativou bastante, mas que tem falhas que são difíceis de negar. De qualquer forma, o game merece um teste não só por fãs de games de sobrevivência, mas quem gosta de gerenciamento ou até procura um coop para embarcar com os amigos.

State of Decay 2 está disponível para Xbox One e PC.

Nota do crítico