Viajar é arriscar. E não estou falando de acidentes aéreos, nem nada disso. Um dos meus maiores medos quando pego um ônibus ou avião é quem vai se sentar do meu lado. Entre os mais temidos estão o espaçoso, o que fica enjoado e o que quer puxar conversa. Como não dá para se proteger dos dois primeiros (apenas rezar) tenho as minhas armas de defesa contra esta última espécie: uma revista/gibi/livro, um iPod e um fone de ouvidos anti-ruído - praticamente um escudo antimalas.

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John Williams

Voltando de Los Angeles, depois das entrevistas do Speed Racer (que você vai começar a assistir na OmeleTV em alguns dias), algo muito diferente aconteceu. Ao meu lado estava uma senhora pequena e com traços asiáticos. Depois de já ter visto um filminho, comido o lanche e tentado dormir, percebi que a soneca não ia rolar. Resolvi então ler. Estava com a inglesa Empire especial do Indiana Jones em mãos, lendo textos escritos pelas próprias pessoas que fizeram o filme. Foi então que a senhora do meu lado me cutucou e perguntou em espanhol:

- Tem aí o compositor da música?
- Sim, está aqui o John Williams - respondi mostrando a foto.
- É esse mesmo. Ele é o meu patrão. Trabalho para o Sr. Williams.

Assim que consegui colocar meu queixo de volta no lugar, voltei a conversar com ela. Seu nome era Carmen e ela me contou que trabalha com o Maestro John Williams há 18 anos! Não só isso. Depois de tanto tempo, ela também conhece figuras como Steven Spielberg e George Lucas, para citar só alguns dos que estavam retratados na revista.

Nem precisei me esforçar muito para saber um pouco mais sobre a vida do Señor Williams. Orgulhosa do seu trabalho e do seu patrão, Carmen ia contando como estava triste porque provavelmente não ia poder ir para a Olimpíada de Pequim este ano, já que Steven Spielberg não ia mais cuidar da cerimônia de abertura - com trilha sonora de John Williams. E relatou o "desespero" do maestro agora que Spielberg deixou o cargo administrativo da Dreamworks e está trabalhando para lançar dois filmes por ano. Afinal, Williams já tem 76 anos de idade e o acordo de fazer as trilhas-sonoras dos filmes do diretor vai lhe garantir mais trabalho do que gostaria.

Falou também dos concertos beneficentes regidos pelo compositor ao redor dos Estados Unidos, da vez que uma orquestra da Venezuela formada por jovens músicos foi tocar sob sua regência em Los Angeles e como ele responde as mensagens que recebe de fãs - "às vezes demora, mas sempre responde. Ele adora saber que existe gente jovem interessada em música clássica."

O processo criativo também entrou na pauta. Com uma voz baixa (e atrapalhada pelo som das turbinas do avião), minha vizinha contava histórias que deve ter ouvido muitas vezes, como aquela vez em que Spielberg tinha um problemão para resolver: cada vez que o tubarão saía da água, uma fortuna era gasta. Como diminuir o número de aparições do peixão? E John Williams ficou lá por horas pensando, tocando algumas notas no seu piano, até achar o tema de Jaws, que seria usado para criar no público a sensação de que o bicho estava por ali. E Carmen ainda cantarolou o tema pra mim!

Na meia-hora que conversamos, a minha amiga peruana falou também que quando migrou aos Estados Unidos não falava inglês e trabalhou como babá até pegar confiança. Por muito tempo ela cuidou de um menino chamado Max. Algum tempo depois, já trabalhando para John Williams, ela atende o telefone e era o Max. Reconheceram a voz um do outro e ela perguntou:

- Como você me achou aqui?
- Não liguei para falar com você. Estou procurando o meu pai. Ele está aí?, retrucou o menino.
- E quem é o seu pai? - perguntou ela, na inocência.
- O Steve.

O garoto era Max Spielberg, filho do primeiro casamento do cineasta, com a atriz Amy Irving.

Talvez a Dona Carmen seja uma atriz e eu estivesse sendo filmado para uma "pegadinha" da TV Peruana. "Lo que sea", como diriam nossos vizinhos hispanofônicos, o importante é que consegui uma história legal para contar para você e até para os meus filhos e netos. E o melhor é que o "beliscão" que vai provar se tudo isso realmente aconteceu ou não  será completamente indolor: Carmen disse que quando voltar a Los Angeles vai me mandar o CD do E.T. - O Extraterrestre (meu filme favorito) autografado pelo John Williams. Será?