Em maio de 2019, quando Call of Duty: Modern Warfare foi oficialmente revelado ao público, prometendo trazer uma nova versão do aclamado shooter que conquistou o mundo e tornou a série em um dos maiores nomes da indústria.

Na época, a Infinity Ward já havia vendido o game como uma experiência com uma narrativa mais ambígua do que seus predecessores, prometendo explorar a perspectiva tanto dos soldados treinados das forças especiais dos EUA e Reino Unido, quanto os rebeldes de países em estado de guerra civil.

Ainda assim, mesmo na época do anúncio, uma frase do Capitão Price no trailer de anúncio ficou martelando na minha cabeça:

Nós nos sujamos para que o mundo fique limpo. Esta é a missão.

Minha reação foi… pouco encorajadora quanto ao assunto.

Divulgação/Infinity Ward

E nem é como se a este ponto eu não esperasse algo assim da série, considerando a narrativa de jogos anteriores (os dois primeiros Black Ops - dois dos títulos da franquia, honestamente -, em particular), mas alguma coisa nesta frase deste trailer em particular não me caiu bem, talvez justamente por estar lendo bastante sobre a invasão do Iêmen pela Arábia Saudita, com ajuda e financiamento dos governos dos EUA e da terra-natal de Price, o Reino Unido.

E que este ato de “sujar as mãos” em particular levou a um genocídio, e agora até mesmo os sauditas estão pagando por isso.

Claro, tudo isso pode ser uma impressão preliminar minha, e que o novo ModernWarfare talvez seja mais profundo do que parece em relação a temas tão sensíveis. Mas após participar de um evento especial sobre o jogo, não tenho certeza disso.

A convite da Activision, The Enemy teve a chance de participar de uma apresentação especial de Call of Duty: Modern Warfare direto de Londres, onde houve a possibilidade de assistir a painéis, entrevistar desenvolvedores e até os atores que interpretaram alguns dos personagens centrais na trama.

Divulgação/Infinity Ward

Uma coisa que não pude fazer, para minha frustração, foi poder testar alguma parte da campanha em si. A única coisa relacionada a gameplay para se testar (além de CoD Mobile) era o divertido modo Gunfight.

Das novas declarações e informações que a Infinity Ward revelou, porém, meus receios continuam.

O Call of Duty: Modern Warfare de 2019 coloca o jogador sobre 3 perspectivas centrais: Kyle Garreck, um soldado britânico das Forças Especiais SAS que serve sob Price; Alex, um agente da CIA operando no país fictício de Urzikstan; e Farah, líder de um grupo de rebeldes que se alia a Alex.

Durante a apresentação inicial, o diretor narrativo do jogo, Taylor Kurosaki, procurou reforçar a ambiguidade moral das situações que o jogador encontrará durante a narrativa, e as decisões que podem levar a mortes desnecessárias.

Não há caras bons ou maus”, disse em certo momento.

Divulgação/Infinity Ward

Para demonstrar isso, a Infinity Ward exibiu gameplay da fase “Operation Clean House”, mostrando Price e seu esquadrão invadindo e eliminando uma célula terrorista que habita uma casa em Camden Town, Londres.

É uma demonstração brutal, mostrando os agentes da SAS em visão noturna atirando em homens e mulheres (em alguns casos desarmados) enquanto avançam pelos andares da casa, as balas soando como trovões e os momentos de silêncio pontuados pelos sons dos alvos engasgando e morrendo.

(Para quem já tem uma familiaridade maior com os previews da campanha, esta é a demo em que o jogador pode atirar acidentalmente - ou não - em uma mulher segurando um bebê)

Ao fim do vídeo, Price e Garreck matam uma mulher desarmada escondida no topo da residência. Logo após isso, é revelado que ele estava se movendo em direção a um detonador para (presumivelmente) explodir a casa.

Garreck demonstra alívio ao descobrir isso e pergunta a Price se eles fizeram o trabalho certo. O capitão aprova o trabalho, dizendo que o objetivo - a localização de um alvo conhecido como “Wolf” - foi cumprido.

Divulgação/Infinity Ward

E a meu ver, pelo menos, isso tira o impacto da questão da ambiguidade moral. É até possível se sentir mal pelas mortes destas pessoas, mas o jogo na figura de Price diz que, apesar de tudo, você fez a coisa certa. Por isso, há definitivos “caras bons e maus” nesta situação.

Mesmo o fato de a ação da missão ser em Londres tira parte significativa desta ambiguidade. Se a mesma fase acontecesse da mesma forma, mas no país fictício, as questões morais seriam bem maiores.

(O próprio Kurosaki acidentalmente admitiu isso enquanto mostrava mais sobre a tecnologia de visão noturna do jogo, ao mostrar as partes bordadas dos uniformes dos soldados para identificar “os caras bons dos caras maus”)

O papel de Price, desta vez interpretado por Barry Sloane - de Revenge e Six, onde curiosamente também interpretou um soldado de forças especiais - parece, de muitas forças, o compasso moral para personagens como Farah e Garreck.

[Ele é] uma figura paterna para muitos destes personagens”, diz o próprio Sloane em entrevista com The Enemy. “Permitindo-os a crescer e achar seu caminho pela guerra. Definir o que funcionou para ele e o que não deu certo, e fazê-los tomar suas próprias decisões.

De qualquer forma, isso não quer dizer que a narrativa será ruim, necessariamente, e é importante deixar claro que minhas impressões são claramente de apenas uma pequena parte desta história.

“Neste mundo moralmente complexo, onde não há puro bem e puro mal, até que ponto você está disposto a chegar para completar seus objetivos”, explica Kurosaki durante sua entrevista com The Enemy. “Que preço você está disposto a pagar para - por falta de um termo melhor - ganhar?”

Cada personagem é imposto com esta pergunta, até os antagonistas”, continuou. “Eles são os heróis da sua própria história. Eles querem alcançar o que vêem como o bem maior, e estão dispostos a fazer o que for preciso para conseguí-lo.”

A este ponto, porém, o que eu gostaria de ver na campanha de Modern Warfare - e que já foi tocado em outros game de guerra, como Spec Ops: The Line (não sendo a primeira vez em que estes dois jogos são comparados) - são perguntas que vão além destas: este preço vale a pena? E quem realmente se beneficia desta vitória?

Eu não me sinto particularmente otimista quanto a isso, mas estou disposto a dar o benefício da dúvida - pelo menos o jogo é mecanicamente interessante a este ponto.

Call of Duty: Modern Warfare será lançado em 25 de outubro para PlayStation 4, Xbox One e PC.