Lançamentos de consoles sempre são casos estranhos onde o ceticismo de consumidor se mistura de forma inusitada com a curiosidade do entusiasta. Isso se tornou ainda mais real com o Switch, um videogame que causa confusão por ter um conceito e execução muito diferentes de sua competição, sentimento que torna-se ainda mais presente ao considerar o quão parecido foi com o antecessor Wii U.

Felizmente, a Nintendo tinha uma arma para tentar mostrar que está a par dos tempos, e não existiria franquia melhor do que The Legend of Zelda para demonstrar isso. Inegavelmente, ela é uma série que se reinventou e passou por diversos estilos ao decorrer do tempo. Agora, novamente com a tarefa de carregar um novo produto durante seus primeiros meses de vida, a empresa não economizou munição e entregou Breath of the Wild.

A nova aventura começa sem economizar no mistério: como Link, você acorda de um sono profundo em uma estranha caverna, sem saber quanto tempo se passou ou como você foi parar lá. Alguns segundos depois você já está livre para explorar o mundo da forma que quiser. É apenas com o passar de horas de jogo que descobrimos sobre uma grande tragédia que aconteceu um século antes mas ainda atormenta as terras de Hyrule, precisando que o grande herói viaje pelos quatro cantos do continente e reúna apoio dos povos locais e suas armas anciãs para combater a ameaça.

Enquanto a trama é simples, é o bastante para oferecer o incentivo necessário para o ponto central da jogabilidade: explorar.

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O mundo de Breath of the Wild é de encher os olhos. Cada cenário, de paisagens desérticas à campos abertos, brilha com cor e vida. Melhor do que isso é que a forma como o mapa é construído permite que você encontre seus objetivos na base da visão, sem a necessidade de ficar seguindo pontos ou linhas abstratas em seu GPS.

Isso não significa que o ambiente fique devendo em conteúdo. Cada canto é povoado por histórias, tanto de NPCs quanto de aventuras em potencial. O game só não faz questão de jogar na sua cara com ícones, notificações ou qualquer coisa do gênero. Por menor que seja, essa alteração humaniza a forma como o jogador interage com o mundo e torna a exploração uma atividade que parte do seu interesse ao invés de mais uma tarefa em uma lista de objetivos.

As mecânicas também te incentivam a ser criativo. Tanto o combate quanto a exploração são feitos a partir de sistemas que, individualmente, parecem simples ou até mesmo rasos, mas que abrem espaço para você pirar.

Apenas caminhando pelo mundo, por exemplo, me deparei com um inimigo muito maior do que eu poderia enfrentar, porém ele estava dormindo na sombra de uma árvore. Decidi ignora-lo e caçar uma criatura que passa por perto com um arco. Após atirar a flecha achei que o havia acordado com o barulho, mas para minha surpresa ele apenas estava com fome, portanto levantou-se e foi aproveitar o animal que eu havia abatido. Como consequência, meu possível item de cura foi inutilizado, mas tive a minha passagem  liberada sem sofrer dano algum.

Esse encontro poderia ocorrer de milhares de formas diferentes, e mesmo o combate te dá diversas alternativas de como usar os seus vários poderes e armamentos em conjunto com o cenário para resultados mais caóticos. Isso é uma representação de como a jogabilidade emergente de Zelda permite momentos divertidos e bate com o tema geral da aventura: encorajar a experimentação por parte do jogador, sem revelar tudo logo de cara.

Em uma época onde todo mistério é exposto em trailers e você raramente deixa de ser guiado enquanto joga, encontrar um game que vê valor em preservar seus segredos e surpresas é recompensador. Tudo nele é pensado para ser cutucado e fuçado, e é bem comum apenas descobrir da existência de locações ou mecânica ao conversar com outra pessoa ou ver algo a respeito no Twitter.

Olhando friamente, Breath of the Wild não vai mudar a forma como os títulos de mundo aberto são feitos, mas ele traz uma nova e libertadora perspectiva para o público. Tanto para os entusiastas quanto para quem já está sentindo a fadiga da tendência do momento - mesmo que a Nintendo tenha puxado algumas influências aqui e ali.

Ainda que Zelda tenha utilizado sua própria abordagem, ideias atuais de design são fortemente usadas durante todo o jogo. Além das já tradicionais torres que liberam partes do mapa, também há inúmeros desafios extras que te recompensam com equipamentos e progressão para Link.

Chamadas de Shrines, essas câmaras talvez sejam a parte mais fraca da experiência: todas compartilham o mesmo visual e uma lógica parecida para serem resolvidas. É possível traçar um paralelo com as testchambers de Portal, exceto que aqui elas raramente crescem em dificuldade ou fazem você pensar fora da caixa. Considerando que a quest principal constantemente aumenta o nível dos seus inimigos, torna-se necessário tirar uns minutos do seu dia para upar, e isso pode ser repetitivo e cansativo.

Por mais que o game esteja carregando um console novo nas costas, vale ressaltar que se trata de um lançamento multiplataforma para a Nintendo. A versão de Wii U é um caso complicado: apesar de segurar a barra e oferecer uma experiência decente, ela é assombrada por vários problemas visuais como texturas borradas e um serrilhado sempre presente, além de constantes quedas de framerate que não tem um padrão para acontecer - você pode acabar com uma performance mediana tanto em conflitos intensos quanto em calmos campos abertos ou no interior de casas. Caso o port seja a sua única chance de aproveitar o jogo, vá em frente. Agora se você se vê adquirindo um Switch no futuro próximo, vale a pena esperar um pouco.

O novo The Legend of Zelda é um dos títulos mais interessantes dos últimos anos. Apesar de não repensar o gênero de mundo aberto, a forma como executa ideias já consolidadas é invejável, priorizando a liberdade e incentivando o jogador a sempre usar sua criatividade ao máximo para abordar as situações. Combine isso com o foco em explorar seu belíssimo ambiente que você tem um game cujo a experiência com certeza será agradável.

Breath of the Wild marca um começo fortíssimo para o Switch ao mesmo tempo que se consagra um dos melhores jogos do ano, capaz de atingir uma das mais importantes conquistas que um produto de entretenimento pode proporcionar: te fazer pensar em todas as possíveis aventuras e descobertas mesmo após você desligar o videogame.

Nota do crítico