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Review: Jump Force

Um fanfic meia-boca entre telas de carregamento

Por Bruno Silva 14.02.2019 03H17

O que você faria se tivesse a sua disposição alguns dos personagens mais famosos do mundo, como os de Dragon Ball, One Piece, Naruto, Bleach ou Cavaleiros do Zodíaco? Que tipo de história criaria? Para qualquer fã, as possibilidades seriam infinitas. O céu seria o limite.

Mas nem um elenco tão estrelado como esse é capaz de salvar Jump Force da mediocridade.

Criado em comemoração aos 50 anos da revista Shonen Jump, cujas páginas já foram ou ainda são casa de alguns dos títulos mais famosos na história do mangá shonen (termo usado para classificar mangás para garotos). É gente de calibre pesado que estamos falando aqui: além das franquias citadas acima, temos JoJo's Bizarre AdventureYu Yu Hakusho, Hokuto no Ken, Samurai X... no total, são 16 séries contempladas.

O game que chega para celebrar este aniversário é um produto questionável, que tenta esconder uma experiência feita nas coxas com gráficos bonitos e uma apresentação pomposa.

Crédito: Bandai Namco/Divulgação

Jump Force coloca o jogador na pele de um cidadão comum, que habita nosso mundo - até que ele se vê no fogo cruzado de uma luta entre Freeza e guerreiros de Dragon Ball, One Piece e Naruto. Ao ser atingido, o inesperado acontece: um objeto misterioso, chamado Cubo Umbras, não apenas o salva da morte como lhe confere os poderes dos heróis.

Tudo isso, claro, serve para apresentar o robusto sistema de customização de Jump Force, que une roupas, penteados, cicatrizes, armas e - principalmente - movimentos consagrados de várias séries famosas. Quer fazer seu lutador aprender o Meteoro de Pégaso, o Kame Hame Ha e o Leigan? Vá em frente.

Utilizando este avatar, Jump Force segue a mesma linha de títulos como Dragon Ball Xenoverse, misturando campanha e outros modos de jogo em uma extensa central de atividades. Mas vamos primeiro a história.

Após o incidente descrito acima, seu personagem se une a Jump Force, um exército que investiga a misteriosa fusão entre os universos dos mangás existentes no jogo (aqui chamados de Mundos Jump) com a nossa realidade, ao mesmo tempo em que defende a humanidade de criaturas malignas chamadas Venoms - que são nada menos do que avatares similares ao seu, com tons sombrios.

A partir daí, a história de Jump Force se arrasta de forma modorrenta em uma missão para dar espaço, seja recrutando heróis para o seu exército ou enfrentando vilões, a cada um dos 40 lutadores do jogo. Jump Force gasta tanto tempo apresentando seu elenco que é necessária uma boa dose de paciência para chegar na história que o jogo efetivamente quer contar,

Não ajuda também o fato de Jump Force manter todas as idiossincrasias técnicas do escalão B de jogos de anime, como o excesso de burocracias em menus (boa parte das missões precisam ser acessadas em uma central de missões no hub principal) e, principalmente, em uma quantidade ridícula de telas de carregamento. O jogo pausa tudo para carregar até mesmo uma simples cena de 30 segundos - algo inexplicável quando o título roda em aparelhos do poder de um Xbox One ou de um PlayStation 4.

A principal decepção com a trama de Jump Force, no entanto, é ver como a história desperdiça o maior potencial de um crossover desta magnitude: a interação entre personagens radicalmente diferentes entre cada série, seja para o humor, seja para o drama.

Em um festival de personagens que consolidaram os arquétipos do mangá shonen como o conhecemos - o protagonista cabeça-dura no estilo Naruto ou Seiya, o anti-herói revoltado representado por Vegeta e Sasuke, ou o tipo habilidoso e estóico vivido por Kenshiro ou Kenshin -, quase tudo o que se fala são frases de efeito ou diálogos expositivos desinteressantes.

As animações no modo história também são dignas de pena em alguns momentos, com diálogos que não acompanham as vozes, ou até mesmo sprites que são deslocados de um lugar para outro sem nenhum tipo de alteração no movimento - como neste clipe em que Freeza voa, mas parece mesmo estar sendo abduzido.

Combate

O que interessa em Jump Force, seja na história, seja em outros modos, é partir para a porrada, e nesta parte o game cumpre suas poucas expectativas sem muitas surpresas. Este não é um jogo do qual você pode esperar uma complexidade tática e técnica como a de seus pares de gênero que figuram em um cenário competitivo. Não há partidas de Jump Force em alto nível, pois o nível é baixo por padrão do sistema.

Jump Force se ancora em dinâmicas de vantagem e desvantagem em cada um de seus tipos de ataque, sem muito apreço por caixas de dano (formas invisíveis que, nos jogos de luta, determinam se um golpe acerta no oponente ou não, dependendo de como o personagem se movimenta). Agarrões vão superar bloqueios, botões de defesa oferecem contra-golpes ou escapes durante combos, e por aí vai.

Bandai Namco/Divulgação

O que importa aqui é cada lutador mostrar suas técnicas com o máximo de efeitos visuais possíveis, e é nesta parte que Jump Force foi feito com mais capricho. Embora eu ache um pouco questionável a decisão de unir traços cartunescos com gráficos fotorrealistas, a mistura funciona nos efeitos de explosões e magias, especialmente quando são desferidos as técnicas de Despertar - os golpes mais fortes de cada lutador.

Os ataques com Despertar geralmente são de difícil defesa e tiram boa parte da sua barra de vida. Dependendo do lutador, é possível que eles também incluam algum tipo de transformação: Goku e Vegeta como Super Saiyajin, Naruto em modo Bijuu, Seiya com a armadura de ouro de Sagitário, e por aí vai. Os golpes são apelões, mas o espetáculo visual vale a pena.

O elenco também foi fruto de um bom processo de seleção. Boa parte dos lutadores já havia aparecido em outros títulos comemorativos da Shonen Jump, como J-Stars Victory VS (2014), mas aqui a Bandai Namco fez um pente fino que contemplou suas principais séries sem deixar de lado algumas surpresas - arrisco dizer que ninguém imaginava ver a produtora tirando o Fly da geladeira. O jogo só poderia ter um pouco mais mulheres, especialmente se levarmos em conta o número de protagonistas importantes e poderosas em séries mais "novas", como Naruto, One Piece ou Bleach.

Bandai Namco/Divulgação

Seu sistema de combate raso diverte, especialmente se você levar o jogo para aquele seu encontro com amigos otakus, mas a pouca profundidade mostra que há pouca técnica para se dominar ali. O sistema de inteligência artificial do jogo é pouco inteligente, aceitando boa parte dos golpes de peito aberto (cansei de vencer lutas só usando o Rasengan de Naruto),

No fim das contas, Jump Force é exatamente o que a maioria dos conhecedores de jogos de anime esperavam. Apesar do anúncio cheio de destaque na última E3 e o verniz gráfico de um jogo de alto orçamento, é um título raso, sem uma história interessante, simples de jogar, sem muitos desafios, que vai te divertir ao colocar seus animes favoritos no seu comando, mas não passa disso: um fanfic meia-boca entre telas de carregamento.

E, como não passa disso, deixa a decepção do que poderia ter sido.

Nota do crítico